Cici
4 Gerações

Há casas que guardam cheiro de café, lembrança de infância e risadas antigas. Mas há outras que guardam silêncios. Silêncios pesados, desses que atravessam décadas como se estivessem apenas esperando alguém abrir a porta de novo.
Em Cici — 4 Gerações, uma família retorna ao lugar onde tudo começou: a casa da infância, no interior da Turquia. Trinta anos se passaram desde uma tragédia que mudou o rumo de todos. A vida seguiu, ao menos na superfície. Os filhos cresceram, envelheceram, carregaram suas versões da verdade e tentaram continuar. Só que o passado, essa criatura inconveniente e altamente sem noção, nunca aceita ser arquivado sem recorrer.
Quando eles se reencontram naquele mesmo espaço, cada cômodo parece devolver uma lembrança. Um olhar antigo. Uma culpa mal resolvida. Uma mágoa que ninguém teve coragem de nomear. O que deveria ser apenas um retorno familiar se transforma em uma travessia íntima pelas feridas de uma geração inteira.
O filme não trabalha o drama como escândalo, mas como infiltração. Ele entra devagar, pelas frestas. Em vez de gritar, ele observa. Em vez de entregar respostas fáceis, ele mostra como cada pessoa dentro de uma família pode lembrar o mesmo acontecimento de um jeito diferente. E é aí que Cici cresce: na tensão entre memória e verdade, afeto e ressentimento, casa e prisão emocional.
É uma obra sobre família, mas não aquela família bonita de comercial de margarina, essa peça de ficção corporativa que a humanidade insiste em vender. Aqui, família é território de amor, mas também de abandono, culpa, medo, proteção e silêncio. É onde a gente aprende a amar, mas também onde muita coisa se quebra primeiro.
Cici — 4 Gerações é para quem gosta de dramas profundos, humanos e contemplativos, daqueles que não dependem de correria para prender. A força está nas camadas: no que foi dito, no que foi calado e no que cada personagem escolheu lembrar para conseguir sobreviver.
